Há motivos para se falar sobre sentimentos e emoções na escola?

por Fernando Cardoso - Coordenador Pedagógico Fundamental 1 da Escola Viva

 

           “Repetir, repetir, repetir. A mesma lembrança.

Até que a fricção das tristezas produza uma centelha de alegria.

(João Anzanello Carrascoza, 2022)

 

Alguém sabe me dizer o que é o amor?

(Pequena pausa para reflexão)

"Se perguntar o que é o amor para mim

Não sei responder

Não sei explicar (...)”

(Música de Arlindo, Barbara e Roberto)

 

Poucos de nós, adultos de 2023, tivemos espaço para nomear, conversar e refletir sobre as emoções e os sentimentos quando estávamos na escola.

Alguns conseguiram respostas na poesia; outros, na literatura, nas artes; muitos descobriram com o apoio de profissionais da saúde; há ainda quem a “vida” ensinou (ou não); e temos também aqueles que seguem tentando, mas poucos (bem poucos!) tiveram o privilégio de falar sobre emoções e sentimentos na escola.

Já está comprovado que, em qualquer fase da escolaridade, na perspectiva de uma formação integral, crianças e adolescentes não se desenvolvem apenas intelectualmente, desenvolvem-se também fisicamente, socialmente, culturalmente e emocionalmente.

Portanto, leitoras e leitores, emocionados e sentimentais, precisamos garantir que nossas escolas tenham espaços planejados e intencionais para falar sobre emoções e sentimentos.

O que são sentimentos e emoções para a Escola Viva?

Curioso que sou, resolvi perguntar para alguns estudantes o que são sentimentos e emoções.

“Emoções fazem parte do dia a dia, amor, raiva, ansiedade e tals. Sentimentos são mais fortes e complexos, podem te deixar feliz por muito tempo ou triste também.” (7° ano)

“Sentimento é amar o seu cachorro, a sua mãe, o seu pai… e a emoção é uma surpresa boa, tipo ganhar uma coisa que você quer já faz muito tempo”. (4° ano)

“Raiva, felicidade, alegria, medo são algumas emoções, e um monte de emoções juntas viram um sentimento. Igual no filme Divertida Mente”. (5° ano)

Qual resposta está correta?

“Não sei responder

Não sei explicar (...)”

(Música de Arlindo, Barbara e Roberto)

É tão desafiador como responder à pergunta: “O que é o amor?”

Contudo, é importante destacar que os termos “emoção” e “sentimento”, muitas vezes usados como sinônimos, são coisas diferentes.

De forma simplificada, podemos dizer que emoção é uma reação imediata a determinados estímulos externos, tem curta duração e não envolve, necessariamente, o pensamento.

Já o sentimento reflete como o sujeito está “se sentindo” diante de uma (ou mais) emoção, na maioria das vezes, é duradouro, pode ser camuflado pelo sujeito e envolve experiências mentais complexas, percepções diversas a diferentes estímulos e a avaliações intensas.

Mas quem vai ter “coragem” de questionar as definições sensíveis dos nossos estudantes?

Afinal, emoções e sentimentos estão sempre conosco, mas nem sempre conseguimos falar sobre eles com tranquilidade. Uma pena!

“Homem não chora” ou “quando casar passa”

Quantas vezes já ouvimos ou falamos isso, não é?

Para Cláudio Thebas, a falta de repertório para expressar o que estamos sentindo nos leva inconscientemente a procurar alternativas linguísticas equivocadas para expressar o que não sabemos nomear. Uma dessas alternativas é agir como uma avó protetora que tenta nos proteger dos sentimentos, afinal, sentimentos podem doer.

Eis aí a importância de entender e reconhecer os sentimentos e as emoções, de validar e permitir senti-los. E a escola tem se tornado cada vez mais um excelente espaço para essa discussão.

Para falar sobre sentimentos e emoções na escola não existe nenhuma receita de sucesso, mas é fundamental que se tenha intencionalidade e que existam espaços de escuta e acolhimento.

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) propõe não apenas a aprendizagem de conteúdos curriculares, mas também aprendizagens socioemocionais para o desenvolvimento integral dos estudantes. A sociedade e as relações humanas estão mudando constantemente, precisamos formar cidadãos críticos e emocionalmente saudáveis para atuar neste mundo dinâmico, imprevisível e cada vez mais complexo.

Algumas estratégias que usamos na Escola Viva

Na Educação Infantil, as rodas, as brincadeiras, as cantorias, a literatura, os cantos de experiências, incluem também propostas para que os pequenos possam entender, nomear e verbalizar o que estão sentindo. Um exemplo disso acontece nos momentos de atelier, quando, por meio de experimentações as crianças puderam investigar: Qual é a sensação que a tinta causa na minha pele?

No Ensino Fundamental, temos as rodas de conversa (assembleias), nas quais os estudantes exploram atitudes de protagonismo, ao compartilhar com o restante da turma como se sentiram diante de algo que não gostaram, como, por exemplo, não respeitar a regra de uma brincadeira ou do futebol e até mesmo sobre como deixar a escola um lugar cada vez melhor para todos e todas. Refletem também sobre os conflitos e sobre dilemas morais de convívio e pensam coletivamente em estratégias para as situações apresentadas. É pura emoção!

No primeiro semestre - inspirados pelo curta-metragem Sentimentário - os anos iniciais criaram o “Mural dos Sentimentos”.

Recentemente, os adolescentes dos anos finais, com a supervisão da Orientação Educacional, criaram o “Grupo de Ajuda”, espaço de escuta para estudantes que querem conversar com outros estudantes - uma beleza de projeto!

O Sarau de Música e Poesia também é palco para florescer e concretizar o trabalho com os sentimentos e as emoções na nossa escola.

No Ensino Médio, estudantes criaram o coletivo “Viva por Elas”, um espaço político fundamental para a formação de indivíduos capazes de entender as subjetividades do outro, possibilitando o poder da escuta e do lugar de fala. Território fértil para germinar emoções e sentimentos ocultos.

E é claro que ainda há muito para se fazer.

Afinal, há ou não motivos para falar sobre emoções e sentimentos na escola?

Há muitos motivos para se falar sobre emoções e sentimentos na escola: primeiro porque é um espaço privilegiado para a construção de conhecimentos diversos, local para se relacionar com uma diversidade de sujeitos, de refletir sobre a sociedade na qual queremos viver e construir e; segundo, porque é o lugar onde crianças e jovens permanecem (ou deveriam permanecer) durante boa parte do seu dia.

Se, desde pequenos, os estudantes aprendem a encarar e a nomear as emoções e os sentimentos, na adolescência e na vida adulta, estarão muito mais preparados para enfrentar os desafios futuros - as possíveis crises e conflitos -, para resolver problemas da vida de forma criativa e para se relacionar com o outro e consigo mesmo de forma saudável.

Afinal de contas, as emoções e os sentimentos estão presentes no dia a dia escolar, seja na resolução de conflitos, nas relações que se estabelece com as áreas de conhecimento, nas diferentes formas de se expressar, nas novas descobertas e aprendizagem, nas brincadeiras e no convívio diário, nas relações humanas, no cuidado consigo e com o outro.

Falar sobre emoções e sentimentos na escola é promover o autoconhecimento, o autocuidado, o que vai favorecer as relações de convívio e as de alteridade para a vida toda - Eu sinto, mas o outro também sente! Eu me emociono e o outro também!

Que tal pensar mais sobre tudo isso?

Vocês podem começar me respondendo:  “O que é o amor?”

(Mais uma pequena pausa para reflexão).

“Quando a gente ama, brilha mais que o sol

É muita luz, é emoção

O amor (...)”

(Música de Arlindo, Barbara e Roberto)

Referências:

CARRASCOZA, J. A. Inventário do azul. Rio de Janeiro: Alfaguarra, 2022.

TACLA, C. et. al. Aprendizagem socioemocional na escola. In: ESTANISLAU, G. M; BRESSAN, R. A. (org.). Saúde mental na escola: o que educadores devem saber. Porto Alegre: Artmed, 2014.

THEBAS, C. Ser bom não é ser bonzinho: como a comunicação não violenta e a arte do palhaço podem te ajudar a identificar e expressar suas necessidades de maneira clara e autêntica - e evitar julgamentos, como o deste título. São Paulo: Planeta, 2021.


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