A Luta contra o racismo também começa na escola


por Luciana Sobral

professora e integrante do Comitê de Educação Antirracista Viva

Palestra - Fábio Conceição - Diversidade e Inclusão Étnico-Racial

Sentir e entender: “falar de si, para falar de nós” 

Já virou anedota, mas tem sabor amargo.

É uma daquelas histórias que professores e professoras colecionam, contam e recontam sobre quando eram estudantes…

Tenho 8 anos e, sentada lá no meio da sala, olho ao redor virando a cabeça para trás e para frente. A primeira fileira branca. As fileiras de trás vão escurecendo e ficando como minha velha amiga sentada lá no fundo. Eu, parda. Meio indígena, meio negra, meio tudo. 

A professora pede o lápis de cor ocre. Ocre? A maioria têm estojos com 6 cores ou no máximo 12. Procuramos inquietos por uma cor que ninguém conhece. A professora é durona e muitos, como eu, tentam cair em suas graças e receber algum reconhecimento.  

A menina e o menino sentados na primeira fila são claros. Ela abre um estojo - com muitas dobras - e que parece aos meus olhos, imenso.  Quase consigo ouvir um OH! Tira orgulhosa o lápis ocre e entrega à professora que a elogia. 

Eu queria ser ela e namorar com ele. 

Ele se recusa a dançar comigo na Festa Junina, ela me coloca de escanteio com certo desprezo ou repulsa que senti em outros olhos, outros gestos e palavras ao longo dos anos dentro da escola. 

A mesma escola que me fez sentir o gosto amargo da discriminação, me encantou com o conhecimento capaz de me fazer entender, anos depois, o que foi tudo aquilo que vivi…

“Sou uma, mas não sou só”

O racismo ganha estranhos e perversos contornos no país que ainda alimenta o mito da Democracia Racial. Em casa, minha mãe esfregava meu pescoço “encardido”, mas se orgulhava do meu cabelo “bom”. Muitas décadas depois, em um almoço de família, ouço, surpresa, minha mãe e tias falarem que são pretas! Pretas? Foi isso que eu ouvi? Na infância, o assunto era maltratado, era “mal-dito” ou não dito … O que aconteceu?

Será que a trajetória recente põe à prova as avarias da história moderna e colonial e, ao mesmo tempo, instiga descobertas e desvela o racismo? 

O Tamanho do desafio 

No entender do professor Kabengele Munanga “Só a própria educação é capaz de desconstruir os monstros que criou e construir novos indivíduos que valorizem e convivam com as diferenças.”  

O desafio de propor uma educação antirracista é imenso e, por vezes, não sabemos por onde começar. Afinal, todos (ou quase todos) somos antirracistas, não é? Nos indignamos com posturas racistas nos campos de futebol ou nas ações da polícia em comunidades de maioria negra. Desejamos que nossos filhos e filhas sejam sensíveis e solidários e esperamos que a escola seja o lugar da equidade, do diálogo, do afeto e pluriversal. 

Então como abordar a ferida e as ranhuras do racismo? Apresentar casos recorrentes que transbordam nas mídias diariamente parece pouco. Ignorar os casos pode ser leviano. Ler relatos e depoimentos de episódios de racismo é capaz de sensibilizar nossos estudantes? Questionar os privilégios da branquitude? Ter coragem para romper com currículos eurocêntricos que muitas vezes reproduzem o que criticamos?

Palestra - Fábio Conceição - Diversidade e Inclusão Étnico-Racial

Um Projeto de Fôlego e Envergadura: Letramento Racial 

A resposta às perguntas de por onde começar passam pelo letramento racial. Há uma longa trajetória de resistência, luta, produção intelectual e artística a ser descoberta e redescoberta e que nos precede. Intelectuais, artistas e vozes negras e indígenas são fonte permanente de consulta. 

É papel da escola reconhecer a necessidade do letramento e da busca de autores que abordem de diferentes formas e alimentem nossos saberes, por vezes restritos e equivocados, com reflexões capazes de nos mover. É preciso estar inconformado de alguma forma para então mergulhar nas leituras e nos debates.

Se faz necessário ampliar a discussão para o significado de racismo estrutural e institucional. As ações de indivíduos ou grupos podem ser o começo da conversa, mas não garantem, por si só, o entendimento do que está na estrutura do racismo. Limitar a discussão ao que é individual e que pode ser resolvido com um conjunto de leis é insuficiente e frágil. Ao mesmo tempo, é nas ações cotidianas e recorrentes que podemos, de alguma forma, mexer na engrenagem estrutural. 

O trabalho passa pelo entendimento histórico do racismo, caminha pelas inquietações, preconceitos e medos de cada um e avança para uma postura que seja antirracista. 

Estudar para além dos dados e textos sobre a escravidão, conhecer personalidades negras presentes em toda a história do Atlântico Negro e do Brasil, ampliar o contato com a literatura e a arte e reconhecer as diferentes narrativas das vozes negras e indígenas pode ser um caminho possível. 

No primeiro semestre criamos na Escola Viva, o Comitê Antirracista com diversos representantes da comunidade escolar. Entendendo a escola como espaço de transformação e revisão de posturas, o Comitê estuda e procura traçar os rumos de uma educação comprometida e engajada no movimento antirracista.  

Discutimos que ações individuais, coletivas e institucionais podem contribuir para o fortalecimento da comunidade escolar no sentido de combater as expressões racistas presentes de forma explícita ou sutil na sociedade excludente em que vivemos e ajudar a construir um outro projeto de país.

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