Por Carol Mennocchi, coordenadora de Bibliotecas
Vivemos um tempo marcado pela aceleração, pela lógica da produtividade contínua e pela fragmentação da atenção. Desde cedo, crianças e jovens também são atravessadas por esse mundo que exige respostas rápidas, desempenho constante e presença dispersa. Nesse cenário, torna-se urgente criar espaços de escuta, de permanência e de partilha, espaços onde o sentido possa ser construído com ética, imaginação e vínculo.
As narrativas sempre foram um eixo estruturante da experiência humana. É por meio das histórias que organizamos o pensamento, elaboramos emoções e nos reconhecemos como parte de uma comunidade. Em contraste com o excesso de estímulos instantâneos do mundo contemporâneo, a literatura oferece aquilo que hoje se tornou raro: tempo, profundidade e continuidade. Não como fuga da realidade, mas como forma de habitá-la com mais densidade.
Vivemos na era do “em 1,5x”, atravessados por opiniões instantâneas, vídeos curtos, textos reduzidos a resumos, leituras apressadas. Mas o conhecimento, aquele que permanece, nunca foi rápido. Ler exige silêncio, dúvida, concentração e disposição para não entender tudo de imediato. Exige voltar, reler, hesitar. E isso é muito bom!
O problema não é a falta de informação. Nunca tivemos tanta. O problema é a recusa do tempo necessário para que a informação se transforme em experiência. Conhecimento nasce do intervalo, da demora, da insistência.
Walter Benjamin já alertava que a modernidade empobreceu a experiência ao substituir a transmissão lenta do saber, feita pela narrativa e pela escuta, pela circulação veloz de informações fragmentadas. Quanto mais acontecimentos se acumulam, menos eles se tornam narráveis, partilháveis, pensáveis. A informação chega rápido, mas não se deposita; não cria raízes.
Quase um século depois, Byung-Chul Han aprofunda esse diagnóstico ao afirmar que “a informação é aditiva e cumulativa. Ela não é portadora de sentido, enquanto a narração, por sua vez, transporta o sentido. Originariamente, sentido significa direção. Estamos hoje, portanto, muito bem-informados, mas desorientados” (HAN, 2023, p. 14).
Na Escola Viva, sempre acreditamos que a literatura é um dos caminhos possíveis para restituir direção, profundidade e experiência ao tempo da infância e adolescência e, assim sendo, seguimos de forma consistente expandindo e dinamizando significativamente nosso acervo literário, desenvolvendo projetos formativos contínuos com a equipe, fortalecendo os clubes de leitura e as trocas literárias internas da equipe, e, agora em fevereiro, inaugurando uma biblioteca ampliada na Unidade 336. Um gesto concreto que afirma a importância da literatura desde os primeiros gestos, palavras e encontros com o mundo.
A literatura, portanto, não é ornamento nem passatempo: é um compromisso ético e pedagógico. Ela restitui direção ao pensamento, forja espessura à experiência e alarga o tempo. Um gesto de cuidado com o mundo, com nossa sanidade mental,uma boa escolha por profundidade em um mundo que insiste na superfície.
Carol Mennocchi
Referências
BENJAMIN, Walter. Experiência e pobreza. 1933.
HAN, Byung-Chul. A crise da narração. 2023.
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